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Uma casa que começa na escuta

Casa moderna em cimento queimado
Bloco da casa ao fundo e estúdio na frente, a passarela acessa o Hall de entrada e ponte entre os blocos.

Quando projetar é organizar limites, tempo e intimidade


A história desta casa começou antes do desenho.


Começou na escolha do terreno — e, principalmente, na escuta.


Um casal jovem adulto me procurou para desenvolver a casa dos sonhos. Ele, engenheiro. Ela, jornalista, apaixonada por peças com história. Ambos músicos no tempo livre. Desde o início, participei ativamente da escolha do lote: uma pequena chácara dentro de um condomínio no interior de São Paulo, a apenas quinze minutos da cidade.


Costumo definir esse lugar como um refúgio urbano. Próximo o suficiente para manter a vida cotidiana funcionando, distante o bastante para permitir silêncio, tempo e respiro.


Campo sem isolamento. Cidade sem excesso.


O programa que nasce da conversa


Meu processo não começa com referências visuais. Começa com conversa.

Falo sobre muitos assuntos, ouço histórias, observo pausas, contradições, entusiasmos.


No meio dessas trocas, vou recolhendo fragmentos — não exatamente do que é pedido, mas do que é vivido. O briefing, para mim, não é uma lista de ambientes. É um quebra-cabeça mental que se organiza aos poucos.


Mais do que entender o que o casal queria, era necessário compreender como eles vivem, o que valorizam, o que precisa ser protegido e o que pode ser compartilhado. Arquitetura, nesse ponto, é filtro. É organização de desejos.


Fechar para a rua, abrir para dentro

Varanda rústica
Varanda rústica com posrtas que se abrem completamente integrando exterior e interior

Uma decisão ficou clara desde cedo: a casa não deveria se expor para a rua.Não por medo, mas por coerência com o modo de viver daquele casal.


Optamos por uma implantação voltada para o interior do terreno, com grandes aberturas internas e mínima relação direta com a via. A casa se organiza a partir de si mesma, criando seu próprio mundo. O exterior não é negado — é selecionado.


Essa escolha determinou tudo o que veio depois.


O terreno como aliado


O lote apresentava um leve aclive. Em vez de nivelar ou neutralizar o solo, decidimos ler o terreno. A casa se distribui em três níveis, cada um com função clara:

  • o acesso acontece pelo piso intermediário, onde estão os espaços públicos

  • o pavimento superior abriga a área íntima

  • o pavimento inferior concentra a área de serviço e um ateliê


Essa organização permite que a casa funcione de forma fluida, sem hierarquias forçadas. Cada nível responde ao uso, ao tempo do dia e ao grau de privacidade.


Luz sem exposição


Como a casa se fecha para a rua, a iluminação natural precisou ser pensada com cuidado. A solução veio com a luz zenital: um pé-direito duplo na circulação vertical, que traz luz ao coração da casa sem expor sua intimidade.


Não é um gesto plástico.

É uma decisão silenciosa que faz o espaço funcionar melhor todos os dias.

A luz organiza, orienta e conecta os níveis — sem pedir atenção.


Dois blocos, dois mundos


Em determinado momento, surgiu um pedido importante: um estúdio que, no futuro, se tornaria um espaço dedicado à gravação de música. O desafio não era técnico. Era existencial.


Como incorporar um espaço que poderia receber pessoas externas sem comprometer a privacidade da casa?


A solução foi desenhar dois blocos independentes, unidos por uma “ponte imaginária”. Essa separação permite isolar completamente um volume do outro ou integrá-los quando desejado.


Não é um anexo. Não é um corredor. É uma decisão de limite.


Hoje, esse espaço ainda funciona como sala. O estúdio virá quando fizer sentido. A casa não está presa ao futuro — ela está preparada para ele.


A ponte como lugar de escolha


Essa ponte imaginária se materializa como o hall de entrada suspenso entre os blocos. É ali que a casa negocia seus graus de abertura.


Quem chega não invade. Quem mora escolhe.


O acesso acontece em um território neutro, que anuncia desde o primeiro passo que existem dois corpos distintos: o doméstico e o criativo. A integração não é automática. É consciente.


Poucas decisões dizem tanto sobre uma casa quanto aquelas que não aparecem nas fotos.


O que essa casa revela


Essa casa não é sobre estética. É sobre organizar relações: com o terreno, com o tempo, com o outro, com o mundo externo.


Ela não tenta mostrar tudo. Ela escolhe o que expor.


E talvez seja isso que mais me interessa na arquitetura: quando o projeto não grita, não se impõe, não se explica — apenas faz sentido.



Sobre a publicação

Casa Real apresenta projetos que evidenciam decisões arquitetônicas consistentes. Cada obra publicada, autoral ou convidada, é escolhida pela clareza com que organiza espaço, uso e identidade.

Projeto autoral de Arq Luciane.

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Créditos  Imagens Pinterest / Google / Promai .
Em Curadoria de conteúdos as imagens não são autorais. Para conhecer o trabalho autoral da arquiteta acesse o Portfólio

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